quarta-feira, 18 de maio de 2016

Segue um texto de Frei Betto, muito oportuno neste momento que estamos vivendo, e que mais do que nunca precisamos nos manter FIRMES e FORTES na Luta, inclusive utilizá-lo nas nossas ações formativas.

1 - Mantenha viva a indignação. Verifique periodicamente se você é mesmo de esquerda. Adote o critério de Norberto Bobbio: a direita considera a desigualdade social tão natural quanto a diferença entre o dia e a noite. A esquerda encara-a como uma aberração a ser erradicada. Cuidado: você pode estar contaminado pelo vírus social-democrata, cujos principais sintomas são usar métodos de direita para obter conquistas de esquerda e, em caso de conflito, desagradar aos pequenos para não ficar mal com os grandes.
2 – A cabeça pensa aonde os pés pisam: Não dá para ser de esquerda sem “sujar” os sapatos lá onde o povo vive, luta, sofre, alegra-se e celebra suas crenças e vitórias. Teoria sem prática é o jogo da direita. Os Nossos políticos se descolaram da base. Penso que se há um problema com os partidos de esquerda no Brasil, é ter eleitores e não ter militantes. Não se pode deixar de caminhar nas bases populares, mesmo que se vire presidente do país. É mantendo o vínculo com movimentos sociais que encontramos o gás que nos alimenta nessa luta.
3 – Não se envergonhe de acreditar no socialismo: O escândalo da Inquisição não faz os cristãos abandonarem os valores e as propostas do Evangelho. Do mesmo modo, o fracasso do socialismo no Leste europeu não deve induzi-lo a descartar o socialismo do horizonte da história humana. O capitalismo, vigente há 200 anos, fracassou para a maioria da população mundial. Hoje, somos 6 bilhões de habitantes. Segundo o Banco Mundial, 2,8 bilhões sobrevivem com menos de US$ 2 por dia. E 1,2 bilhão, com menos de US$ 1 por dia. A globalização da miséria só não é maior graças ao socialismo chinês que, malgrado seus erros, assegura alimentação, saúde e educação a 1,2 bilhão de pessoas.
4 – Seja crítico sem perder a autocrítica: Muitos militantes de esquerda mudam de lado quando começam a catar piolho em cabeça de alfinete. Preteridos do poder, tornamse amargos e acusam os seus companheiros(as) de erros e vacilações. Como diz Jesus, vêem o Projeto Revoluções [Dez Conselhos para os Militantes de Esquerda] Frei Betto3 cisco do olho do outro, mas não o camelo no próprio olho. Nem se engajam para melhorar as coisas. Ficam como meros espectadores e juízes e, aos poucos, são cooptados pelo sistema. Autocrítica não é só admitir os próprios erros. É admitir ser criticado pelos(as) companheiros(as).
 5 – Saiba a diferença entre militante e “militonto”: "Militonto" é aquele que se gaba de estar em tudo, participar de todos os eventos e movimentos, atuar em todas as frentes. Sua linguagem é repleta de chavões e os efeitos de sua ação são superficiais. O militante aprofunda seus vínculos com o povo, estuda, reflete, medita; qualifica-se numa determinada forma e área de atuação ou atividade, valoriza os vínculos orgânicos e os projetos comunitários.
 6 – Seja rigoroso na ética da militância: A esquerda age por princípios. A direita, por interesses. Um militante de esquerda pode perder tudo – a liberdade, o emprego, a vida. Menos a moral. Ao desmoralizar-se, desmoraliza a causa que defende e encarna. Presta um inestimável serviço à direita. Há pelegos disfarçados de militante de esquerda. É o sujeito que se engaja visando, em primeiro lugar, sua ascensão ao poder. Em Projeto Revoluções [Dez Conselhos para os Militantes de Esquerda] Frei Betto4 nome de uma causa coletiva, busca primeiro seu interesse pessoal. O verdadeiro militante – como Jesus, Gandhi, Che Guevara – é um servidor, disposto a dar a própria vida para que outros tenham vida. Não se sente humilhado por não estar no poder, ou orgulhoso ao estar. Ele não se confunde com a função que ocupa.
7 – Alimente-se na tradição da esquerda: É preciso oração para cultivar a fé, carinho para nutrir o amor do casal, "voltar às fontes" para manter acesa a mística da militância. Conheça a história da esquerda, leia (auto)biografias, como o "Diário do Che na Bolívia", e romances como "A Mãe", de Gorki.
8 – Prefira o risco de errar com os pobres a ter a pretensão de acertar sem eles: Os pobres agem por princípio de necessidade, a elite age por interesse. É importante que saibamos que não existe pessoa mais culta que a outra, existem culturas distintas e socialmente complementares. O nosso povo é culto, só não sabe que é.
9. Defenda sempre o oprimido, ainda que aparentemente ele não tenha razão: São tantos os sofrimentos dos pobres do mundo que não se pode esperar deles atitudes que nem sempre aparecem na vida daqueles que tiveram uma educação refinada. Em todos os setores da sociedade há corruptos e bandidos. A diferença é que, na elite, a corrupção se faz com a proteção da lei e os bandidos são defendidos por mecanismos econômicos sofisticados, que permitem que um especulador leve uma nação inteira à penúria. A vida é o dom maior de Deus. A existência da pobreza clama aos céus. Não espere jamais ser compreendido por quem favorece a opressão dos pobres. Quando criticam as ocupações do MST, dizendo que são agressivas ou coisa parecida, sempre respondo lembrando a quem perguntou que agressivo é o colonialismo, a escravatura, a política para os imigrantes. O exagero que o pequeno faz não é nada diante das enormes atrocidades organizadas pelos grandes para dominar o mundo.
10 – Faca da espiritualidade um antídoto contra a alienação: Orar é deixar-se questionar pelo Espírito de Deus. Muitas vezes deixamos de rezar para não ouvir o apelo divino que exige a nossa conversão, isto é, a mudança de rumo na vida. Falamos como militantes e vivemos como burgueses, acomodados ou na cômoda posição de juízes de quem luta. Orar é permitir que Deus subverta a nossa existência, ensinando-nos a amar assim como Jesus amava, libertadoramente. Não falo de fé. A espiritualidade pode ser religiosa ou não. É importante que cultivemos a nossa subjetividade. Falamos como militantes e vivemos como burgueses, acomodados ou na cômoda posição de juízes de quem luta. Os dons da vida são um mistério, a vida é toda centrada na experiência do amor, e o amor é um mistério. Não importa se uma pessoa é atéia ou à toa, tem é que ser revolucionária. E sem tem uma coisa da qual nós podermos ter certeza é a de que o amor é revolucionário.

 Um forte abraço

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